Criatividade Versus Perfeccionismo


Quem ganha e quem perde no seu negócio?




Houve um tempo em que se pensava que “time is Money”. Não era recomendável perder nenhum minuto em questões que poderiam gerar alguma dúvida ou mesmo arriscar algo sem ter a absoluta certeza do ganho! E para isto ocorrer, tinha se a certeza de que o imprescindível era seguir a cartilha da padronização e do esperado no mundo dos que ficaram ricos e obtiveram sucesso e fama, com trabalho árduo e uma longa e sólida carreira que se constituía em permanecer no mesmo ofício, uma vida inteira. Este foi o paradigma de anos e anos no mundo corporativo.


A questão que me chama a atenção é: onde teria sido colocada a criatividade nestes anos todos? Será que a padronização e a permanência exclusiva numa mesma tarefa contribuíram para a geração de mentes criativas?


De acordo com a metodologia Pathwork® de autoconhecimento, desde a nossa primeira infância, vamos colecionando conceitos que acreditamos serem os mais pertinentes a tudo o que nos acontece e o que percebemos no mundo exterior à nossa mente. Ainda criança, nossa mente que é rudimentar, cria pensamentos simples, sempre inflexíveis, generalizados e irreais, mas que tem o objetivo de resolver as questões emergenciais que nos afligem.


Com isto, criamos nossas primeiras defesas, as quais irão nos proteger dos dissabores momentâneos. E estas defesas, neste momento, cumprem com seu objetivo. Mas, ao longo da vida, estes pensamentos que atuam como defesa vão se depositando no nosso inconsciente e nós continuamos a fazer uso destes mesmos conceitos infantis e rudimentares. Nós não nos damos conta de que ao utilizar tais pensamentos, vamos assim, criando uma forma de atuar e resolver nossas questões diárias, com automatismo e, assim, vamos autoperpetuando nossos conflitos, de forma que mesmo que mudemos de emprego ou de situação externa em nossa vida, nossa maneira de atuar permanece a mesma.


Criamos, assim, um verdadeiro círculo vicioso de atuação. E, isto pode ser observado pela recorrência dos mesmos conflitos mesmo que estejamos em situações e carreiras distintas.

Além disso, vamos criando em nossa mente, também uma lista de características que vão sendo elencadas e que concluímos que se possuirmos tais características, teremos sucesso na vida. Eis que, neste momento, entra em cena o perfeccionismo. Ele entra na pauta principal das nossas vidas! E com isto, entendemos por sucesso, sermos perfeitos! Jamais titubearmos! Temos que ser os mais inteligentes, os mais bonitos, os mais amados, os mais ricos, os mais calmos, e assim por diante. E, na vida adulta, a predominância desta lista passa a ser: tenho que ser coordenador de área, tenho que receber um bônus maior do que meus colegas de trabalho, tenho que ser o CEO da empresa antes dos meus 35 anos, tenho que ter domínio de todos os projetos da empresa, tenho que ser aclamado e conhecido por todos e por aí vai.


Assim, fica muito difícil atuar com espontaneidade e autenticidade!


E a questão continua: onde teria sido colocada a criatividade nestes anos todos? Será que ela se perdeu? Ou será que nunca existiu? Onde foi parar aquela nossa coragem de criar o diferente, de arriscar o novo? E a pergunta crucial: será que conhecemos de verdade nossos melhores recursos internos? Será que temos ideia de quais qualidades possuímos?


Até hoje, privilegiamos buscar a comparação com os outros, nos utilizando daquela lista de autoimagem que foi idealizada e, portanto, é irreal e inalcançável, porque nunca o foco foi no self, no nosso eu interior real.


A ideia de perfeição não existe no nosso mundo real. Ela vai contra a nossa humanidade. O puro anseio em sermos perfeitos, nos leva a privação de criarmos inovações, porque, para isto, é necessário abrirmos mão da padronização, do engessamento de ideias.


É preciso dar um passo no abismo e ao darmos este passo, percebemos que não caímos, mas sim, criamos novas soluções!


Ao aceitarmos nossas imperfeições e buscarmos autoconhecimento, abrimos um portal que oferece acesso ao principal tesouro que cada um de nós apresenta desde sempre, mas que, em geral, não nos lembramos de buscar e trazer para a consciência. Trata-se das nossas qualidades, dons, recursos e talentos que já disponibilizamos.


Mas, nós ainda temos a concepção errônea de que se pudermos controlar os fatores externos que nos impedem de conseguirmos o que desejamos, chegaremos mais perto da perfeição e, portanto, do sucesso. Ledo engano!


Esta é uma ideia irreal e, portanto, não factível. Não temos o controle dos fatores externos, mas sim, temos o comando de como podemos lidar com as variações recorrentes ao longo de toda a nossa vida. Temos a possibilidade de escolher qual o significado que damos para tudo o que nos ocorre, e, assim, escolhermos a forma como vamos atuar.


Um exemplo muito interessante disso é a “cultura do fracasso” que muitas empresas do Estado de Israel têm adotado. Trata-se da valorização e celebração de empreendedores que passaram por fracassos em suas biografias profissionais. Resultado disso é o grande número de startups criadas e desenvolvidas em Israel. Além disso, as empresas israelenses apresentam um grande apetite por riscos1.


Segundo o Cônsul para assuntos econômicos de Israel, Itzhak Reich, “nós gostamos de correr riscos. Em algumas culturas, o fracasso é uma coisa ruim. Ele levanta um alerta que pode prejudicar a sua carreira, então você tem medo. Mas o que acontece em Israel é o oposto. O fracasso parece até uma boa coisa para um empreendedor que precisa de um capital de investimento, precisa levantar fundos”2.


O fracasso nem sempre é ruim. Às vezes, ele ensina que aquele não era o seu caminho.

Thomas J. Watson, CEO da IBM, certa vez, respondeu a um jornalista: “Você gostaria que eu lhe dissesse uma fórmula para o sucesso? É bem simples: dobre a sua taxa de fracasso. Você está pensando no fracasso como um inimigo do sucesso. Mas não é. Você pode se sentir desencorajado pelo fracasso ou pode aprender com ele, então siga em frente e cometa erros. Tantos quantos puder. Porque, lembre que é aí, que você encontrará o sucesso”3.


Lembrando que, ao abrirmos mão de nossa autoimagem idealizada, também abrimos mão do perfeccionismo e, com isto, estamos, sim, mais sujeitos a errar, mas, também, estamos muito mais inclinados à espontaneidade e a colocarmos em movimento muitos dos nossos tesouros que ficaram por tanto tempo escondidos nas cavernas de nosso inconsciente, na obscuridade.


O ganho pessoal é infinitamente maior do que qualquer palavra possa ser expressa. Inclusive maior do que qualquer valor financeiro, “time is not money”. Nós merecemos isto! Este é um direito que todos nós possuímos e não temos usufruído!


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Sobre a autora: Deborah Ghelfond é graduada em Biomedicina pela OSEC (Faculdades Santo Amaro), Pós-graduada em Neurociências e comportamento no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, nível mestrado, facilitadora do Programa Pathwork de Transformação Pessoal para facilitadores e helper do Programa Pathwork de Transformação Pessoal para Helpers.


Referências textuais:

  1. https://www.startse.com/noticia/ecossistema/entenda-como-israel-se-tornou-startup-nation

  2. https://startupi.com.br/2020/11/innovation-week-confira-porque-israel-e-um-dos-maiores-polos-de inovacao-do-mundo/

  3. https://citacoes.in/autores/thomas-john-watson/