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Investimento anjo: uma opção interessante para investidores e empreendedores


O que é investimento anjo?

O ecossistema de inovação, no Brasil, tem ganhado força ao longo dos últimos anos. Para os que acompanham a mais tempo essa tendência, é evidente que o ano de 2019 foi muito especial, com um grande fortalecimento e expansão desse ambiente.


O desenvolvimento de novas tecnologias tem permitido às pequenas e médias empresas participarem de um processo que antes era restrito às grandes empresas. Esse acesso tem balançado os alicerces dos mercados. Novos competidores, mais ágeis e disruptivos, têm a capacidade de oferecer melhores produtos e serviços, ameaçando as empresas tradicionais do país. A contra ofensiva destas empresas tradicionais tem sido a sua imersão nesse novo ambiente, oferecendo capital e estrutura para inovação, o que dinamiza ainda mais o ecossistema, criando um ciclo muito virtuoso.


Embora existam estruturas e veículos de investimento em empresas inovadoras há muitas décadas no Brasil, apenas agora vemos um forte crescimento deste mercado. Aceleradoras, hubs de inovação, corporate ventures, investimento anjo e fundos de venture capital são temas cada vez mais comuns no dia-a-dia dos negócios.


O investimento anjo é uma alternativa muito comum em economias desenvolvidas, principalmente nos EUA, onde a cultura empreendedora de inovação e investimentos alternativos sempre esteve em um estágio mais avançado.


No Brasil, a atividade começou a ganhar força nos últimos anos. Muitas são as razões para esta mudança. Primeiramente, o investimento anjo possibilita aos entusiastas da inovação tecnológica participar mais ativamente desse ecossistema. A forte queda de juros é outro elemento importante que tem fomentado a atividade, com investidores procurando por alternativas para diversificar e rentabilizar melhor suas carteiras. Por último, o crescente interesse de investidores no mercado de inovação e tecnologia é um componente adicional relevante do ciclo virtuoso do ecossistema.

Benefícios do investidor anjo

Para o investidor, além da expectativa de um retorno financeiro superior, o investimento anjo é educativo e também divertido. A proximidade com o ecossistema e profissionais de inovação é uma excelente maneira de se manter atualizado sobre as novas tendências de mercado. Além disso, a experiência profissional e a rede de contatos do investidor são muito valorizadas pelos empreendedores. Caso haja interesse, pode-se ter uma participação ativa na jornada de crescimento das empresas, sendo muito comum o investidor anjo participar das reuniões de conselho das empresas.


Para o empreendedor, o investimento anjo é um instrumento de acesso ao smart money. A alavancagem do negócio ocorre não apenas pelo capital injetado na empresa, mas também pela experiência e rede de contatos que o investidor anjo trás.

Características do investimento anjo

O investimento anjo é arriscado. Em razão disto, o retorno esperado no investimento é superior às demais classes de ativos. Nos EUA, onde há maior abundância de dados, os investimentos em estágios iniciais (seed) apresentam retorno médio entre 5% a 10% ao ano superior aos investimentos tradicionais em renda variável (S&P500).


Diversos fatores explicam as taxas de retornos mais elevadas. Essas são empresas que possuem potencial de crescimento muito elevado, sendo normalmente menos dependentes do ciclo de expansão da economia como um todo. A baixa liquidez do investimento, tendo o capital imobilizado por um período médio de cinco anos, exige também um maior desconto no valor de aquisição da empresa.


Avaliando um investimento

A escolha de um investimento depende de inúmeros fatores, porém algumas características são bastante comuns nesse processo. Investidores buscam por negócios ou tecnologias inovadoras e escaláveis. Porém, há um elemento determinante na probabilidade de sucesso ou fracasso da empresa investida: o perfil do empreendedor. No estágio inicial, onde o produto e mercado ainda não estão totalmente definidos, é o perfil do empreendedor que terá um papel fundamental no sucesso da empresa. É necessário fazer uma análise profunda da experiência profissional e da bagagem educacional, assim como avaliar se o empreendedor tem realmente o espírito empreendedor.


Uma das etapas mais difíceis e controversas do processo de seleção é a avaliação da empresa. O investimento anjo ocorre em um estágio embrionário, quando os indicadores tradicionais de avaliação ainda são inexistentes. Nesta etapa, o processo acaba sendo mais arte do que ciência. Por essa razão, é recomendado que o investidor se conecte a uma rede de anjos, de forma a acompanhar os múltiplos e níveis de preço que os investimentos estão sendo negociados. Além de um melhor acompanhamento dos valores negociados, é por meio destes grupos que os investidores têm acesso às melhores oportunidades de investimentos.


O Merkaz (www.merkaz.com.br) é um ótimo exemplo de comunidade, onde o investidor anjo deve procurar se inserir. O Merkaz oferece encontros periódicos entre investidores e empreendedores, o que permite um grande aprendizado para todos, pois as boas oportunidades de investimentos são amplamente discutidas nesse grupo.


A literatura sobre os processos de avaliação de empresas em estágio inicial é bastante ampla, sendo as metodologias de múltiplos de pares, fluxo de caixa descontado e score card as técnicas mais utilizadas. De forma geral, o investidor deve trabalhar com um retorno esperado de pelo menos 50% ao ano em um horizonte de 5 anos. É necessário trabalhar com um retorno esperado elevado – que implica em uma elevada taxa de desconto no cálculo do valor do investimento – dado o seu maior nível de risco.


É importante que o investidor anjo não tenha aversão a risco. Um número elevado das empresas do portfolio não terá sucesso e acabará encerrando o negócio, resultando na perda total do investimento. Infelizmente, mesmo com todo o processo de diligência, não é possível saber antes da realização do investimento quais serão as empresas que terão sucesso e quais fracassarão.


O risco é elevado, porém existem boas práticas que permitem a construção de um portfolio onde o resultado agregado seja positivo. O segredo é usar a estatística a seu favor e construir portfolios nos quais os casos de sucesso mais que compensem os casos de fracasso.


Algumas boas práticas do investidor anjo:

  • Alocação: separar uma parcela da carteira de investimentos para ativos ilíquidos, deixando o capital alocado nessa categoria por um período médio de cinco anos.

  • Liberação do capital: o investimento inicial na empresa escolhida deve ser 50% do total que deseja investir de fato. O investimento adicional deverá ser feito em rodadas futuras de investimento (follow on), quando se terá uma visão mais clara sobre as chances de sucesso da empresa. Essa estratégia também minimiza a diluição nas rodadas futuras de investimento, permitindo que a sua participação acionária na empresa não seja muito reduzida.

  • Diversificação: essa é a estratégia mais importante em um portfolio de investimentos. O investidor deve se planejar para construir uma carteira com no mínimo vinte empresas. Somente assim o efeito estatístico do retorno esperado jogará a seu favor.

  • Due dilligence e contrato de investimento: é necessária uma análise detalhada dos relatórios financeiros e do contrato de investimento. Dado que não há padronização de contratos ou agentes reguladores atuando neste mercado, essas são etapas fundamentais do investimento anjo.


Aqui, novamente, fica clara a importância da participação do investidor em uma rede de anjos. É necessário analisar um número elevado de empresas para que se possa selecionar e montar carteiras diversificadas de alta qualidade. Além disso, investimentos por meio de redes de anjos facilitam o trabalho de due dilligence e confecção do contrato de investimento.

A saída do investidor anjo

O investimento anjo é apenas a primeira etapa de uma longa jornada da vida da empresa. Em caso de sucesso, a necessidade de crescimento da empresa e de captações em maior volume financeiro demandarão mudanças na estrutura de capital que, muitas vezes, exigirão a saída do investidor anjo do negócio.


A saída pode ser por venda da participação para um fundo de venture capital ou um comprador estratégico. Essa saída é positiva para todos. O empreendedor passará a ter acesso a um pool de investimento mais robusto e auxílio de profissionais qualificados para continuar na sua jornada de crescimento. O investidor, por sua vez, obterá liquidez no seu investimento com um retorno muito positivo. Podemos dizer que essa etapa é como um pai ou uma mãe que ficam felizes ao ver seu filho sair de casa para ir para uma boa faculdade ou para uma boa oportunidade de emprego. O investimento termina aqui, mas o relacionamento com o fundador poderá continuar. E o investidor terá agora o capital livre para procurar novos negócios promissores.


Investimento anjo é um tema muito amplo e o objetivo aqui foi apresentar alguns aspectos gerais dessa modalidade de investimento. Para os interessados, existe uma ampla literatura disponível, mas não deixe de visitar o Merkaz para saber mais sobre o assunto.

Investimento anjo pós COVID-19


A pandemia desse ano está sendo um grande choque para a economia e para o ecossistema das startups como um todo. Ainda há grande incerteza sobre o processo de estabilização e recuperação. Porém, deve-se esperar a continuidade do crescimento deste ecossistema. Empresas inovadoras e de alto teor tecnológico são menos expostas aos ciclos macroeconômicos e se elas se propuserem a solucionar um problema real, certamente haverá mercado e investidores para elas.


Vale também dizer que os valores a que as empresas vinham sendo negociadas no período pré-COVID-19 estavam muito elevados, o que implicava em retornos esperados mais baixos sobre o investimento. Desde o início da crise, houve fechamento de rodadas de investimentos e temos visto descontos na ordem de 20% a 50% em relação ao final de 2019. Um ponto que reforça que o investidor deve se manter atento às oportunidades atuais é o fato de que, historicamente, as melhores safras de fundos seed, VC e private equity iniciam-se durante ou logo após crises e recessões. Esses são momentos únicos, em que se consegue comprar participação acionária de boas empresas com preços mais atraentes.


Segue outro dado interessante. Segundo um estudo da fundação Kauffman de empreendedorismo de 2009, mais da metade das empresas da fortune 500 foram fundadas durante bear markets (mercado acionário em baixa) ou recessões. Isto significa que, mesmo na atual crise do COVID-19, uma grande empresa de amanhã pode estar começando suas atividades hoje. Não deixe essa oportunidade passar!


Alexandre Carlos Lintz CFA

Possui doutorado em finanças pela USP. É investidor anjo e sócio fundador da 1289 Capital, empresa voltada para investimento seed e venture capital. Também é membro da Poli Angels.

Fonte: 1 - Robert Wiltbank “Returns to Angel Investors in Groups” (Willamette University); Venture Economics, HFRI; 2012

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