Por que confundimos separatividade com individualidade?


O mais elevado e mais desejado estado de todo o plano da evolução é a união tanto para nós humanos, quanto para os animais também. Mas a união ainda não é uma realidade no nosso plano terreno. Em alguns casos, podemos ter algum lampejo, alguma ideia do que esta união seja.


Utilizamos de um dos maiores recursos que possuímos para tanto, que é a comunicação. E nesta podemos nos valer da cooperação. Cooperação tão esperada, requisitada e almejada em todas as áreas de nossas vidas. Passamos por muitos aprendizados para aprender que a cooperação é mais do que necessária para a nossa sobrevivência, ela é imprescindível.


No mundo corporativo nem se cogita não haver troca de ideias, tecnologias, saberes, reciprocidade, envolvimento, escuta, parcerias. Todos estes elementos fazem parte da nossa comunicação. E aqueles que se prendem numa ilha solitária de trocas, sendo como membranas impermeáveis ao novo, findam ao ostracismo e ao esquecimento.


Mesmo que em muitos momentos tendemos a negligenciar a ação destes elementos, precisamos nos lembrar das nossas qualidades, dos nossos recursos e potenciais internos para que eles sejam colocados em movimento a fim de permitir o nosso saudável crescimento como seres pensantes e agregadores e para tanto precisamos dispor de três movimentos essenciais.


Estes movimentos nos são peculiares e naturais e são eles que nos conferem nossa individualidade. São eles:

  • Movimento para o exterior que pode ser compreendido como a busca do outro. Neste estágio colocamos o ego em segundo plano. Tendemos a nos relacionar com os outros, nos expandimos, é onde existe a troca e a possibilidade de expressarmos nossos talentos. Neste lugar revelamos tudo o que temos aprendido ao longo da vida.

  • Movimento para dentro que é a busca do eu, ou seja, a assimilação de tudo o que foi absorvido pelo movimento para fora e sua aplicação adequada para si mesmo. Este movimento é também muito importante porque é neste estágio em que nos interiorizamos e digerimos tudo o que nos foi exposto ao longo de nossa vida.

  • Repouso é importante para a preservação, o acúmulo de um novo impulso para a preparação de um novo ciclo. É uma pausa, um estado de apenas ser. Parece não haver movimento, mas a energia despendida para este estado é tão grande quanto à dos outros movimentos. Podemos entender o repouso como um movimento de descanso onde atividades diferentes das que estamos acostumados a fazer, se fazem presentes. É o momento de o lúdico entrar em ação.


Como estes três movimentos são responsáveis por formar nossa individualidade são também de grande importância, já que nos permitem ter consciência de quem somos e de como estamos atuando em nossas vidas.


No outro extremo, temos a separatividade que é sempre motivada pelo nossa parte que sente medo, orgulho no sentido de que querer ser melhor ou mais importante que o outro e a obstinação que, nada mais é, do que a teimosia com que todos nós, em algum momento de nossas vidas atuamos quando queremos que as coisas sejam feitas da nossa forma. Ou seja, o medo, o orgulho e a obstinação existem dentro de todos nós e funcionam como nossa sombra, nosso eu menor ou eu inferior.


E são estas três características que podem nos levar à separatividade. Todos nós apresentamos estas três características, o importante é termos consciência de quando estamos atuando motivados por elas para que possamos mudar a rota de nossas atuações.

Na separatividade nos isolamos porque acreditamos erroneamente que o mundo é contra nós. Que nossos colegas nos “puxam o tapete”, que “deveríamos ser mais ouvidos e vistos”, que nossos “chefes não reconhecem nossos esforços e talentos”. Pois é, assim fica difícil sentir a vida como ela deve ser. Prazer e bem aventurança!


As frases citadas acima são sempre concepções errôneas, ideias rígidas e fixas que formulamos ao longo da nossa vida e passamos a acreditar nelas. Estas concepções errôneas das diversas situações em que fomos submetidos são feridas infantis que todos nós criamos por entendermos e concluirmos mal uma situação que nos ocorreu na nossa primeira infância e que gerou uma defesa do nosso ego. Isto faz parte da experiência interior de todos nós, humanos!


Todos estes movimentos nos levam para uma parede de dor. E neste lugar sentimos uma “pseudossegurança” que contém separatividade e solidão, sentimentos muito diferentes de quando estamos no movimento de individualidade. “Pseudossegurança” porque é uma falsa segurança, ela não é real.


Ao nos darmos conta dos eventos repetitivos que experimentamos em nossas vidas, podemos aos poucos entendendo e conhecendo cada vez mais como temos atuado e como nos sentimos, nos diversos convites que as situações nos trazem. Somos nós que, ao não termos consciência, autoperpetuamos estes eventos.


De forma análoga, podemos exemplificar a individualidade com uma fábrica na qual seus funcionários se esmeram para criar um lindo produto que quando pronto poderá ser oferecido ao mercado. Cada trabalhador tem um papel na produção final do produto. Todos são importantes. Para que o produto final seja ótimo e perfeito, todos precisam expressar o seu talento sem se comparar um com o outro, já que todos são igualmente responsáveis por uma produção perfeita.


Enquanto na separatividade, como não há reciprocidade, não há troca de saberes e, portanto, nada que possa ser criado possa ser oferecido ao universo porque não foi produzido a partir da nossa melhor parte. Na separatividade não houve cooperação e nem comunicação. Não houve trabalho em equipe. E é bastante comum haver comparações entre indivíduos. Fato este fadado ao insucesso e a insatisfação.


O lado bom disto tudo é que as mudanças de atitudes não são apenas possíveis, como esperadas. Toda mudança só é possível com o desejo de mudar e também um profundo autoconhecimento e compreensão de como temos atuado.


A questão central aqui é que temos o hábito de nos julgarmos e nos criticarmos toda vez que nos damos conta de que somos responsáveis por tudo o que tem nos acontecidos. Não! Não é assim que vamos conseguir atuar da melhor forma e nos sentirmos satisfeitos com isso! A ideia é nos auto-observarmos com autoaceitação e autoacolhimento. E o que com certeza nos ajudará é nos lembrarmos que somos humanos e, portanto, perfeitamente imperfeitos!


 

Sobre a autora: Deborah Ghelfond é graduada em Biomedicina pela OSEC (Faculdades Santo Amaro), Pós-graduada em Neurociências e comportamento no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, nível mestrado, facilitadora do Programa Pathwork de Transformação Pessoal para facilitadores e helper do Programa Pathwork de Transformação Pessoal para Helpers.